domingo, 31 de dezembro de 2017

Comtes

Nos últimos dias, estive acompanhando uma docussérie catalã intitulada Comtes: L'origen de Catalunya. Trata-se de uma produção da Xarxa de Comunicació Local ("Rede de Comunicação Local", instrumento de democratização da mídia, da qual tanto necessitamos no Brasil) sobre os governos de quatro condes barceloneses - Vilfredo o Peludo (Guifré el Pelós em catalão), Vilfredo Borrell (Guifré Borrell), Suniário (Sunyer) e Borrell II -, sob a direção de Carles Porta. A cada um dedicou-se um capítulo de 30 minutos, que combinam encenações e lições de uma equipe de historiadores reconhecidos na área.


O período histórico abarcado pela série vai de 878 a 985. Começa pela nomeação de Vilfredo o Peludo e acaba no saque de Barcelona pelo governador cordovês Almançor. Nesse meio-tempo, o que viria ser a Catalunha passa por um processo que lembra muito a atualidade, porque é o processo que leva à soberania do condado barcelonês em relação à monarquia franca. Mutatis mutandis, trata-se da independência catalã. Por isso mesmo, por estarmos num momento em que a perspectiva espanhola tenta silenciar a perspectiva catalã da história, por considerá-la uma das causas do separatismo, é que o lançamento dessa série ganha relevância especial. De fato, um dos cavalos de batalha do espanholismo é defender e convencer de que a Catalunha não é uma nação, nunca foi um país, muito menos independente.
Apesar de ser uma produção bastante modesta, a série mostra muito bem e analisa com muita propriedade os passos decisivos que constituíram um território fronteiriço do reino franco em estado soberano, pois embora suscite analogias com o presente, difere clarissimamente de qualquer separatismo contemporâneo. Efetivamente, não havia lugar para declarações retumbantes com base na soberania nacional.
Assim, o primeiro capítulo, Guifré el Pelós: la fundació, mostra um conde que vai além da função de delegado real, desenvolvendo uma política própria em face das demandas locais. O segundo, Guifré Borrell: la consolidació, mostra um conde que parte para o confronto com a autoridade régia, que se vê obrigada a aceitar a transmissão hereditária dos condados. O terceiro, Sunyer I: la guerra i l'estratègia, mostra um conde que age plenamente como senhor do território, conduzindo conquistas. O quarto e derradeiro, Borrell II: la independència, mostra um conde abandonado à própria sorte por seu rei e pelo papado ante a iminência de um ataque andaluzi, que acabou acontecendo, e a quem não restava senão romper de vez o laço de vassalagem.
Não obstante, à diferença do que ocorreu no resto da península Ibérica, onde as novas soberanias foram vinculadas ao título de rei por aclamação ou herança, na Catalunha ficou vinculada ao título original: conde (comes,cómitis em latim; comte em catalão). Neste sentido, o título da série é muito feliz, pois enfatiza que não é o título do governante que é decisivo, mas o exercício do poder pela graça de um príncipe ou "pela graça de Deus".
Uma continuação da série adentraria a fase em que o conde de Barcelona estende a sua soberania a todos os condados governados pelos descendentes de Vilfredo o Peludo, ou seja, a formação do principado da Catalunha. Com efeito, a sucessão masculina de Vilfredo, conhecida como Casa de Barcelona ou de Aragão (Casal de Barcelona ou d'Aragó), chega até o rei Martim o Humano, morto em 1410, depois do qual a linhagem seguiu através da sucessão masculina de sua irmã Leonor, da Casa de Trastâmara.
Para assistir à série e saber mais, basta acessar http://www.comtes.cat/.

Feliz Ano Novo!
Feliç Any Nou!

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Eleições e línguas

Saíram os últimos resultados das eleições ao parlamento catalão celebradas quinta-feira, dia 21. Aguardava-se a apuração dos votos depositados pelos catalães residentes no exterior. Apesar da repressão, que começou pela violência policial durante o referendo de 1.º de outubro, que se estendeu à intervenção na autonomia pelo governo espanhol, ao exílio de metade do governo catalão, incluso o presidente Carles Puigdemont, e à prisão da outra metade, incluso o vice-presidente Oriol Junqueras, logo após a declaração da independência em 27 do mesmo mês, e que descambou a níveis verdadeiramente ridículos, como a perseguição da cor amarela - símbolo da campanha pela libertação dos membros do governo - até em decorações natalinas, o separatismo ganhou, e isto impõe algumas observações:
  • Desde que o direito de autodeterminação se tornou pauta decisiva nas eleições ao parlamento catalão, o crescimento do apoio à independência tem sido contínuo: 1.734.852 votos em 2012 (CiU + ERC + CUP), 1.966.508 (JxSí + CUP) em 2015 e 2.063.361 (JxCat + ERC + CUP) em 2017. Isto sem contar a consulta de 2014 (1.897.274) e o referendo de 2017 (2.044.498), que transcorreram em situações extraordinárias e adversas.
  • Apesar deste crescimento, o separatismo ainda não ultrapassa a marca dos 50% dos votos válidos: 47,85% em 2012 (participação de 67,56% dos aptos a votar), 47,79% em 2015 (participação de 74,95%) e 47,5% em 2017 (participação de 81,9%). Isto seria irrelevante num referendo pactuado, no qual a maioria simples deveria determinar o resultado, mas na conjuntura catalã, de intransigência por parte do estado espanhol, uma maioria absoluta forçaria uma mudança de postura.
  • A via unilateral para a independência mostrou-se um fracasso, porque no dia seguinte o governo catalão preferiu não constranger os funcionários da Generalitat a escolher permanecer a serviço do Reino da Espanha ou passar à República Catalã. Isso acabaria em confronto civil, talvez até armado, já que o estado espanhol estava disposto a usar de todos os meios para fazer valer a sua legalidade.
  • A parcela da sociedade catalã contrária à independência, que praticamente não participou na consulta de 2014 e no referendo de 2017, rompeu o silêncio, elegendo o partido vencedor, C's (Ciudadanos), com 25,37% dos votos, o qual não tem condições de governar por conta do sistema parlamentarista, que demanda maioria parlamentar para formar governo.
  • Embora no parlamentarismo sejam os partidos que ganham ou perdem e formam governo e oposição, pode-se dizer que Carles Puigdemont é o vencedor desse pleito. Destituído pelo estado espanhol, ele teve de se exilar na Bélgica para evitar o encarceramento e garantir a continuidade histórica da Generalitat, mas agora pode retornar ao Palau relegitimado pelas próprias eleições convocadas para deslegitimá-lo.
  • Do outro lado, o perdedor é Mariano Rajoy, presidente do governo espanhol, cujo partido, o PP (Partido Popular) acabou sendo o menos votado dentre as candidaturas que obtiveram representação parlamentar, com apenas 4,24% dos votos, pois até os catalães espanholistas preferiram votar no C's, que procura tecer um discurso de conciliação e reforma, ao contrário do PP, que defende uma dominação colonial, nua e crua.
  • Há um divórcio consumado entre uma Catalunha que rejeita veementemente o PP e uma Espanha que é governada por ele, endossado por uma sociedade espanhola que comunga em grande medida com o seu discurso imperialista em face do separatismo catalão.
  • A Espanha precisa ceder: abandonar a política de reprimir os catalães cada vez que tentam mudá-la como projeto de país ou sair dela - política essa que é a dos últimos quatrocentos anos -, reconhecer que na Catalunha há uma maioria clara a favor da autodeterminação e há uma maioria clara que elegeu partidos favoráveis à independência, e que em resposta às ameaças e às medidas repressoras essas maiorias não estão se desmobilizando, mas se incrementando, daí a necessidade de se buscar uma via pactuada para celebrar um referendo que resolva de vez a questão.
Pessoalmente, sou bastante incrédulo em relação a tal desfecho, simplesmente porque muitos espanhóis creem que a Espanha é boa demais para tantos catalães quererem deixá-la, de modo que a única explicação que encontram é que os separatistas foram doutrinados pela escola e pela televisão autonômicas para odiar tudo que é espanhol... Enquanto isso, Rajoy terá tudo que precisa para continuar a agir como um valido barroco, tratando de castigar os separatistas como maus vassalos de Sua Majestade Católica.
Posto isto, nos resultados destas últimas eleições aparece um aspecto que eu não poderia calar, dado o foco deste blog: a relação entre voto e língua. Neste sentido, recordo o leitor de que há algum tempo fiz uma postagem sobre o uso do catalão, que na Catalunha apresenta discrepâncias territoriais notáveis, pois é bastante forte nas comarcas interiores, ao passo que enfraquece no âmbito metropolitano e na costa de Barcelona a Tarragona, segundo se lê na Enquesta d'usos lingüístics de 2013. O jornal La Vanguardia ilustrou isso através deste mapa:

Uso habitual do catalão na Catalunha por âmbitos territoriais.

Agora observemos este outro mapa, publicado pelo jornal Ara:


Resultados das eleições ao parlamento catalão em 2017 por comarcas.
O laranja escuro representa a vitória do C's, portanto do voto espanholista. Repare: âmbito metropolitano e costa de Barcelona a Tarragona, áreas que receberam mais gente de outros lugares da Espanha, mais imigrantes e seguem recebendo mais turistas, e onde, por tudo isto, se fala menos o catalão. Na verdade, a própria candidatura do C's ilustra-o muito bem: sua líder, Inés Arrimadas, é andaluza e quase sempre se expressa em castelhano, e castelhanos são os nomes e sobrenomes de quase todos os deputados eleitos por esse partido.
Sei que este é um aspecto que não convém ao catalanismo, por lhe conferir um caráter quase étnico, quando procura promover o contrário: um discurso pluralista. Mas aí está a vantagem de um observador externo, que é o que me considero: poder dizer inclusive o inconveniente.
Digo mais: o diálogo entre espanhóis de matriz castelhana e catalães está cada vez mais difícil. Paira sobre a sociedade espanhola uma indignação nacionalista, em que a Catalunha não é vista como a terra dos catalães, mas como uma possessão do império espanhol, e por isso mesmo, como ousaram ir tão longe? É uma indignação militarista em que não há cabimento sequer para referendo pactuado, daí que se peça a pena máxima aos líderes separatistas e que se almeje espanholizar (ou seja, castelhanizar) tudo quanto possa ter levado os catalães à "loucura" de não querer mais ser espanhóis (essencialmente falar e escrever em catalão na escola e na televisão e contar a história da Catalunha da perspectiva catalã). Em suma, é uma indignação que emerge de uma borra franquista, que aflora irracionalmente em espanhóis tanto de direita como de esquerda, embora só enxerguem irracionalidade no separatismo.
Em lugar nenhum se vê o questionamento: por que não querem mais ser espanhóis? Ou ainda: é possível propor uma reconciliação sem ameaças, repressão ou violência?

Feliz Natal!
Bon Nadal!

domingo, 10 de dezembro de 2017

A variação fonética da língua catalã

Em postagem anterior, procurei resumir as características evolutivas do catalão, pelo menos as fonéticas, porém é claro que essa língua, como qualquer outra, apresenta variações de um lugar a outro, ou seja, é constituída de diversos dialetos.
De antemão, vejamos os fonemas que não apresentam variação, ao menos na generalidade dos dialetos e na maioria das posições que podem ocupar no vocábulo. Como antes, farei uso do Alfabeto Fonético Internacional (AFI). Para quem não o conhece basta clicar sobre a transcrição, que poderá escutar a palavra no Diccionari de Dubtes del Català Oral (as gravações são acionadas clicando sobre o mapa), um magnífico recurso online.
Para começar, as consoantes oclusivas: /p/ e /b/, /t/ e /d/, /k/ e /ɡ/, que seguem as mesmas regras ortográficas do português, respectivamente p e b, t e d, ca,o,u/que,i e ga,o,u/gue,i. No entanto, uma palavra não pode acabar com consoante sonora em catalão, por isso palavras como corb ("corvo"), acord ("frio") ou reg ("rego") pronunciam-se [kɔɾp], [ə'kɔɾt] e [rek], ou seja, nessa posição b soa [p]; d, [t] e g, [k].
É também o caso das fricativas /f/, /s/ e /z/, /ʃ/ e /ʒ/, que seguem igualmente regras ortográficas semelhantes às do português: respectivamente f, ce,ia,o,u ou s/-ss- e z ou -s- (entre vogais), x e ge,i/ja,o,u. Atualmente não se usa ch em catalão.
Especificamente, as sibilantes podem ser africadas, o que na ortografia é notado pelo acréscimo de um t: tz, tx e tge,i/tja,o,u. Exemplos: dotze ("doze"), escletxa ("fenda"), fetge ("fígado"), platja ("praia"), que se pronunciam ['dodzə], [əs'kɫetʃə], ['fedʒə] e ['pɫadʒə]. Tanto se a raiz contém /ʒ/ como se contém /dʒ/, em posição final escreve-se ig, que se pronuncia /tʃ/: boig [bɔtʃ], boja ['bɔʒə] ("louco", "louca"); lleig [ʎɛtʃ], lletja ['ʎɛdʒə] ("feio", "feia").
Esse mesmo t ortográfico pode servir para assinalar que a consoante é longa em palavras patrimoniais, como setmana ("semana"), cotna ("casca"), espatla ou espatlla ("ombro") e bitllet ("bilhete"), que se pronunciam [sə'm:anə], ['kon:ə], [əs'paɫ:ə]/[əs'paʎ:ə] e [bi'ʎ:ɛt]. A propósito, em catalão não há vogais nasais, então as três consoantes nasais são articuladas mesmo em posição final: /m/, /n/ e /ɲ/, escritas m, n e ny (corresponde esta a nh em português). Exemplos: ham [am] ("anzol"), han [an] ("hão"), any [aɲ] ("ano").
Enfim, as consoantes líquidas. Os erres são vibrantes: res ("nada"), serra ("serra"), tres ("três"), herba ("erva") e cera ("cera") pronunciam-se [rɛs], ['sɛrə], [tɾɛs], ['eɾbə], ['sɛɾə]. O l do catalão é velarizado, como o do inglês, e pode ser longo, escrito l·l, embora a articulação alongada seja rara hoje em dia. Exemplos: pal [paɫ] ("pau"), cel·la ['sɛɫ:ə]/['sɛɫə] ("cela"). Sua correspondente palatal escreve-se ll (lh em português), até em posição final: palla ['paʎə] ("palha"), pell [peʎ] ("pele").
A seguir, resumirei os traços dialetais com base no padrão oral proposto pelo IEC (Institut d'Estudis Catalans, a academia da língua catalã). Como o dialeto central é o mais falado e desempenha, de certo modo, o papel de referência, começarei por ele, depois de explicar a classificação dialetal.

Catalão oriental e catalão ocidental
Há uma variante presente desde as origens da língua que permite distinguir dois blocos dialetais. Trata-se da neutralização dos fonemas /e/, /ɛ/ e /a/ em posição átona, que convergem no som [ə], de modo que manar ("mandar") e menar ("tanger") se pronunciam igual: [mə'na]. Outros exemplos: al·ludir ("aludir") e eludir ("eludir") pronunciam-se [əɫu'ði]; jutja ("julga") e jutge ("juiz"), ['ʒudʒə]. Isso tem consequências na morfologia nominal: de palla ['paʎə] ("palha"), palleta ("palhinha"), e de pell [peʎ] ("pele"), pelleta ("pelezinha"), que ficam, então, iguais: [pə'ʎɛtə]. Também na verbal: pago ['paɣu] ("pago"), paguem [pə'ɣɛm] ("pagamos"); pego ['pɛɣu] ("colo"), peguem [pə'ɣɛm] ("colamos").
Essa isoglossa divide a Catalunha ao meio, e transcorre aproximadamente sobre as serras que separam a bacia do Ebro e os demais rios que deságuam no Mediterrâneo. O fenômeno ocorre ao leste, e abrange os Pireneus Orientais, as Ilhas Baleares e Alghero. Ao oeste, conserva-se a diferenciação: [ma'na] × [me'na], [pa'ʎeta] × [pe'ʎeta], [pa'ɣem] × [pe'ɣem]. Daí que esses blocos se denominem catalão oriental e catalão ocidental.
Dentro do catalão oriental, podem-se discernir quatro dialetos: o catalão setentrional, falado nos Pireneus Orientais; o catalão central, falado na metade oriental da Catalunha; o baleárico, falado nas Ilhas Baleares; o alguerès, falado em Alghero (l'Alguer). Dentro do catalão ocidental, dois dialetos: o catalão norte-ocidental, falado em Andorra e na metade ocidental da Catalunha, e o valenciano, falado na Comunidade Valenciana. Os quatro dialetos continentais apresentam zonas de transição entre si.
Mapa dos dialetos do catalão

Catalão central
O resultado do ĭ breve e do ē longo latinos é um [ɛ] aberto, de modo que não se diferencia set ("sede"), do latim sĭtis, e set ("sete"), do latim sĕptem, que se pronunciam [sɛt].
Além do /ɛ/, /e/ e /a/ átonos, também se neutralizam /ɔ/, /o/ e /u/ átonos: coqueta, diminutivo de coca "torta", e cuqueta, diminutivo de cuca "bicho" ("inseto"), pronunciam-se [ku'kɛtə].
As consoantes oclusivas finais ficam mudas depois de nasal: camp [kam] ("campo"), dent [den] ("dente"), blanc [bɫaŋ] ("branco"), tomb [tom] ("volta"), vagabund [bəɣə'βun] ("vagabundo"), sang [saŋ] ("sangue"). Igualmente as dentais finais depois da lateral: salt ("salto") pronuncia-se como sal ("sal"), ou seja, [saɫ].
Outro traço desse dialeto é o alongamento das consoantes /b/ e /ɡ/ antes da lateral: poble ['pɔb:ɫə] ("povo"), regla ['reɡ:ɫə] ("regra"). No registro informal, ocorre normalmente ensurdecimento: ['pɔp:ɫə], ['rek:ɫə].
Ocorre betacismo, ou seja, a consoante /v/ converge com /b/, então veure ("ver") e beure ("beber") se pronunciam ['bɛwɾə]. Costumava haver distinção no Camp de Tarragona, mas hoje se acha em regressão.
A consoante /ʃ/, escrita x, como em xoc "choque" ou panxa ("pança"), é fricativa, ou seja, ['ʃɔk] e ['paɲʃə], mas no âmbito metropolitano de Barcelona normalmente é africada: ['tʃɔk], ['paɲtʃə]. Nessa mesma área, o fonema /dʒ/ ensurdece: fetge fica ['fetʃə]. Além disso, quando escrita ix, esse grupo funciona como dígrafo, pois o i fica mudo: faixa ("faixa") e peix ("peixe") pronunciam-se ['faʃə] e [peʃ].
Um traço em regressão, ainda vivo numa área correspondente aproximadamente aos antigos condados de Osona e Girona, residual no âmbito metropolitano de Barcelona, é a iodização do fonema /ʎ/, pela qual palavras como palla ("palha") e ull ("olho") soam ['pajə] e [uj]. Em Barcelona, é comum dizer-se [buj] por vull ("quero").
O resultados dos segmentos latinos -t'l-, -d'l- e -g'l- é uma lateral palatal longa: espatlla [əs'paʎ:ə] ("ombro", do lat. spatula), motllo ['mɔʎ:u] ("molde", do lat. modulus), vetllar [bə'ʎ:a] ("velar", do lat. uigilare).
Enfim, o /r/ final é geralmente mudo, proferido apenas nalguns poucos vocábulos: ésser ['esə] e ser [sɛ]/[se] ("ser"), mas amor [ə'moɾ] ("amor"), cor [kɔɾ] ("coração"), mar [maɾ] ("mar").

Catalão setentrional
As sete vogais tônicas reduzem-se a cinco, pois as oposições /e/ × /ɛ/ e /ɔ/ × /o/ dão lugar a um [e] e um [o] intermediários, de modo que déu "deus" não difere de deu "dez". Além disso, o resultado do ŭ breve e do ō longo latinos, que nos demais dialetos é um [o] fechado, nesse dialeto deu um [u], daí que dona ("dá"), do latim dōnat, soa ['dunə], enquanto dona ("mulher"), do latim dŏmina, soa ['donə]. O próprio topônimo Rosselló ("Russilhão") é dito [rusi'ʎu].
No consonantismo difere pouco do dialeto central. Os segmentos /nr/ e /ɫr/ do catalão antigo são conservados: entenre ("entender"), valre ("valer"), que são entendre e valdre na norma-padrão e nos outros dialetos. O segmento /jʃ/ perde o elemento palatal em posição final, restando a semivogal: peix pronuncia-se [pej]. Além disso, o /r/ final não é mudo nos monossílabos, mas ganha um reforço de um [ə] ou um [t]: cor soa ['kɔɾə] ou [kɔɾt].
Como em occitano e francês, não há proparoxítonos, de modo que àliga ("águia") fica alga, música se pronuncia [mu'zikə]. No caso dos proparoxítonos acabados em -ia, é a vogal final que cai: gràcia pronuncia-se ['ɡɾasi]. No caso dos imperativos com pronome enclítico, o acento desloca-se para o pronome: seu-te [sew'te] ("senta-te").

Catalão baleárico
O resultado do ĭ breve e do ē longo latinos é [ə], o que acrescenta um oitavo valor ao sistema das vogais tônicas: set ("sede") pronuncia-se [sət], diferentemente de set ("sete"), que soa [sɛt]. Não é um traço geral, pois na metade ocidental de Menorca e no terço mais ocidental de Eivissa o resultado é igual ao do dialeto central, ou seja, um [ɛ] aberto.
Outro traço divergente de uma ilha a outra é a neutralização de /ɔ/, /o/ e /u/ átonos, que ocorre em Menorca e Eivissa, mas não em Maiorca (exceto em Sóller), de modo que coqueta e cuqueta se distinguem: [ko'kətə], [ku'kətə]. Mesmo a neutralização de /ɛ/, /e/ e /a/ átonos não é geral, pois não comparece na alternância morfológica de /e/: pell [peʎ], pelleta [pe'ʎətə]; peg [pek], pegam [pe'ɣam].
No consonantismo, o baleárico difere do central na distinção geral de /b/ e /v/ e na generalização da iodização de /ʎ/ resultante dos segmentos latinos -c'l- e -li-: palla ['pajə] ("palha", do lat. pallea) e ull [uj] ("olho", do lat. oculus). Já a lateral resultante dos segmentos latinos -t'l-, -d'l- e -g'l- não é palatal: espatla [əs'paɫ:ə], motlo ['mɔɫ:o], vetlar [və'ɫ:a].
Também é generalizado o emudecimento do /r/ final: ésser/esser ['esə]/[e'sə] e ser [sə], também amor [ə'mo], cor [kɔ], mar [ma]. Por outro lado, não emudecem as oclusivas finais depois de nasal em Maiorca e Menorca: camp [kamp], dent [dent], blanc [bɫaŋk], tomb [tomp], vagabund [vəɣə'βunt], sang [saŋk]. Nem as dentais finais depois da lateral: salt pronuncia-se [saɫt], diferente de sal [saɫ].
Outro traço desse dialeto é que nele se procura evitar o encontro de duas oclusivas ou de uma oclusiva com uma fricativa. No primeiro caso, ocorre uma assimilação total da primeira consoante à segunda: acte ['at:ə] ("ato"), sap cantar [sak:ən'ta] ("sabe cantar"). No segundo, a primeira consoante converte-se em dental: acció [ətsi'o] ("ação"), sap jugar [sadʒu'ɣa] ("sabe jogar").
Enfim, um traço maiorquino compartilhado com o dialeto setentrional é o apagamento da vogal final nos proparoxítonos acabados em -ia, como em gràcia ['ɡɾasi]. Em contrapartida, é geral no baleárico o deslocamento do acento tônico ao pronome enclítico: anar-se'n [ənaɾ'sən] ("ir-se embora"), seu-te [səu'tə] ("senta-te").

Catalão alguerès
O dialeto alguerès é um caso à parte, pois é essencialmente um catalão medieval bastante influído pelo sardo no léxico patrimonial e muito influído pelo italiano no léxico culto. Na verdade, é até difícil precisar se há mesmo um catalão culto em Alghero, porque, além da distância para a norma-padrão, o pouco uso que resta dessa língua nessa cidade é familiar, e é o italiano que funciona como norma-padrão.
Assim, apesar de ocorrer neutralização de /ɛ/, /e/ e /a/ (com a particularidade de que o resultado não é [ə], mas [a]) e de /ɔ/, /o/ e /u/ átonos, a pronúncia dos cultismos segue a forma italiana: defensor ("defensor") soa [difen'soɾ] (em it. difensore).
No vocalismo tônico, o resultado do ĭ breve e do ē longo latinos é um [e] fechado: set [set] ("sede") fica diferente de set [sɛt] ("sete").
Quanto ao consonantismo, o fonema /ʒ/ é africado: gent [dʒent] ("gente"), joc [dʒɔk] ("jogo").
O sistema das consoantes líquidas foi completamente rearranjado sob a influência da língua sarda: /l/ sofre rotacismo depois de consoante e entre vogais, também /d/ nessa posição, de modo que plat ("prato") se pronuncia igual a prat ("prado"), e cala ("angra") e cada ("cada"), igual a cara ("cara"). O segmento -dr- dá lugar à vibrante múltipla: pedra ("pedra") soa ['pera]. Em contrapartida, /r/ sofre lambdacismo depois de consoante, de modo que sard ("sardo") se pronuncia igual a salt ("salto"). Enfim, /ɲ/ e /ʎ/ despalatizam-se em posição final: fill ("filho") fica igual a fil ("fio"); estany ("lagoa"), igual a estan ("estão").
O /r/ final é mudo, exceto nos infinitivos em -er átono, como ésser ['esaɾ]; na primeira pessoa do presente do indicativo, como esper [as'peɾ] ("espero"); nos monossílabos, como cor [kɔɾ] ("coração"), e nos cultismos.
Em comum com o dialeto baleárico, em alguerès distingue-se /b/ e /v/, não se emudecem as oclusivas finais depois de nasal nem as dentais finais depois da lateral, não se palataliza -tl- (espatla [as'paɫa]) e evita-se o encontro de oclusivas e de oclusivas com fricativas (acte ['ata], acció [asi'o]).
É forte a ocorrência de metáteses: bòria por boira ("névoa"), craba por cabra ("cabra"), trument por turment ("tormento").

Catalão norte-ocidental
Esse dialeto difere do central fundamentalmente no vocalismo, pois há apenas uma divergência consonantal notável: o fonema /ʃ/ em posição inicial ou depois de consoante, que é africado (xoc ['tʃɔk], panxa ['paɲtʃɛ]), e no segmento /jʃ/ não constitui dígrafo, pois se articula o ditongo (faixa ['fajʃɛ], peix [pejʃ]).
No vocalismo tônico, o resultado do ĭ breve e do ē longo latinos é um [e] fechado: set [set] ("sede") distingue-se de set [sɛt] ("sete").
No vocalismo átono, neutralizam-se apenas os pares de vogais médias, ou seja, /e/ e /ɛ/ de um lado e /ɔ/ e /o/, de outro. Portanto, pelleta [pe'ʎetɛ] não se confunde com palleta [pa'ʎetɛ], nem coqueta [ko'ketɛ] com cuqueta [ku'ketɛ]. Mesmo assim, /e/, /ɛ/ e /a/ neutralizam-se em posição inicial em vocábulos patrimoniais, de modo que escala ("escada") se pronuncia [as'kaɫɛ]. Além disso, na área central desse dialeto, onde fica a cidade de Lleida, o /a/ átono final soa [ɛ], como nos exemplos transcritos.

Valenciano
No vocalismo, é igual ao catalão norte-ocidental, com a diferença de que a neutralização de /e/, /ɛ/ e /a/ átonos iniciais não é geral (escala pronuncia-se [es'kaɫa] ou [as'kaɫa]) e o /a/ átono final soa normalmente [a].
No consonantismo, difere desse dialeto pela tendência de se apagarem as consoantes /d/ e /ɡ/ entre vogais em palavras patrimoniais, de modo que cadira ("cadeira") ou agulla ("agulha") podem pronunciar-se [ka'iɾa] e [a'uʎa]; pela tendência de se evitar o alongamento de consoantes (poble ['pɔβɫe], setmana [se'mana]); pela realização fricativa do sufixo -itz- (organitzar [oɾɡani'zaɾ]); pelo apagamento da consoante /z/ no sufixo -esa (bellea por bellesa ("beleza"); o que é, de resto, um traço do catalão antigo); pela realização africada do fonema /ʒ/ (gent [dʒent], joc [dʒɔk]); pelo emudecimento da semivogal no segmento /jʃ/ na maior parte do terço meridional do território (faixa ['faʃa], peix [peʃ]); pela articulação do /r/ final em quase todo o território (amor [a'moɾ], cor [kɔɾ], mar [maɾ], também ésser ['eseɾ] e ser [seɾ]).
Como no catalão baleárico, distinguem-se /b/ e /v/ na área de Castelló de la Plana e no terço meridional; não se emudecem as oclusivas finais depois de nasal e as dentais finais depois de lateral no terço central; não se palataliza o segmento -tl- (espatla [es'paɫ:a]).

Há outras variantes fonéticas, umas mais gerais e outras mais restritas, mas procurei me cingir às admitidas na norma-padrão. Numa próxima postagem, abordarei a variação morfossintática.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

O uso da língua catalã

Na semana passada durante um ato de pré-campanha, Xavier García Albiol, líder do PP (Partido Popular) na Catalunha, disse que fecharia a TV3, a televisão pública catalã, e a reabriria com pessoas "normais", porque é uma "máquina de gerar separatistas". Curiosamente, em 2014 a organização Òmnium Cultural promoveu a campanha Un país normal, em defesa da autodeterminação. Ou seja, a normalidade depende, em grande medida, da perspectiva de uns e outros.
Também o uso de uma língua pode ser normal ou anormal. E o que vem ser normal, de uma perspectiva sociolinguística? É entrar numa loja para comprar, por exemplo, um televisor e ser atendido na sua língua, desde a oferta até o pagamento; é chegar em casa e instalar o aparelho com a ajuda de um manual de instruções escrito na sua língua; é sintonizá-lo a programação na sua língua. É, em última análise, um privilégio de que, em geral, gozam os falantes maternos das línguas estatais, porque os Estados costumam estatuir leis e normas que as protegem, como o português no Brasil e o espanhol na Espanha. Daí falar-se de normalização linguística quando se leva a cabo uma política para tornar normal o uso de certa língua, como o catalão.
Na Catalunha, a Llei de normalització lingüística de 1983 permitiu que se recobrasse o uso do catalão em âmbitos fundamentais para esse processo: preferência pelo catalão na administração pública, escolarização integral nessa língua (exceto nas disciplinas dedicadas aos estudos do castelhano e da literatura espanhola) e emissão também integral nessa mesma língua pelos meios de comunicação públicos (Corporació Catalana de Mitjans Audiovisuals, proprietária da Televisió de Catalunya e da Catalunya Ràdio). E é por isso mesmo que têm se convertido no principal alvo da nova onda de nacionalismo espanhol, causada pelo separatismo catalão.


Contudo, como expliquei noutra postagem, o catalão não é falado apenas na Catalunha, mas em seis territórios, pertencentes a quatro Estados soberanos, que têm regimes linguísticos bem diferentes:
  • França: Segundo o Art. 2.º da Constituição de 1958, o francês é a língua da República. Isso veda o reconhecimento de qualquer outra língua e, por conseguinte, limita políticas que visem à promoção das línguas regionais, que se acham, por isso, em grave perigo de extinção. Mesmo assim, em 2007 o departamento dos Pireneus Orientais promulgou uma Charte en faveur du catalan, que, como o título aponta, não é sequer uma lei, mas mera carta de boas intenções.
  • Andorra: Segundo o Art. 2.º da Constituição de 1993, o catalão é a língua oficial do Principado. Porém a demografia andorrana na segunda metade do séc. XX e a tardia constituição política não favoreceram o catalão, por isso foi necessário promulgar uma Llei d'ordenació de l'ús de la llengua oficial em 1999.
  • Espanha: Segundo o Art. 3.º da Constituição de 1978, o castelhano é a língua oficial do Estado, mas os estatutos das comunidades autônomas podem reconhecer as demais línguas espanholas. Isso quer dizer que essas outras línguas, dentre elas o catalão, se beneficiam, no máximo, da condição de cooficiais em certo território, portanto são legalmente inferiores à língua estatal.
    • Catalunha: O Estatuto de Autonomia de 2006, que sucedeu ao de 1979, oficializa o catalão, e declara-o, ademais, língua própria da Catalunha, preferente das administrações e dos meios de comunicação públicos e veicular do ensino. Tudo isso é regulamentado pela Llei de política lingüística de 1999, que sucedeu a Llei de normalització lingüística de 1983.
    • Comunidade Valenciana: O Estatuto de Autonomia de 1982, reformado pela última vez em 2006, oficializa o catalão com o nome de valenciano, e declara-o, ademais, língua própria da Comunidade Valenciana, reconhecimentos regulamentados pela Llei d'ús i ensenyament del valencià de 1983.
    • Ilhas Baleares: O Estatuto de Autonomia de 1983, reformado pela última vez em 2007, oficializa o catalão e declara-o língua própria das Ilhas Baleares, reconhecimentos regulamentados pela Llei de normalització lingüística de 1986.
    • Aragão: O Estatuto de Autonomia de 1982, reformado pela última vez em 2007, reconhece as "línguas e modalidades linguísticas próprias de Aragão" como manifestação do patrimônio histórico e cultural e cede a uma lei do parlamento aragonês o estabelecimento do regime linguístico da comunidade. Atualmente, essa é a Ley de uso, protección y promoción de las lenguas y modalidades lingüísticas propias de Aragón de 2013, que oficializa apenas o castelhano e permite certa política linguística favorável ao aragonês e ao catalão, os quais, por motivos estritamente partidários (essa lei foi proposta e aprovada pelo PP), são denominados respectivamente "língua aragonesa própria das áreas pirenaica e pré-pirenaica" e "língua aragonesa própria da área oriental".
  • Itália: O Art. 6.º da Constituição de 1947 protege as minorias linguísticas, o que é regulamentado pelas Norme in materia di tutela delle minoranze linguistiche storiche, promulgadas em 1999. Essa lei dispõe que o italiano é a língua oficial do Estado, mas permite a consecução de certa política linguística a favor de doze minorias, dentre as quais a catalanófona.
Essas diferenças e mais as das políticas linguísticas causaram notáveis divergências no uso do catalão de um território a outro:
  • Pireneus Orientais (Catalunha do Norte): 452.530 mil habitantes em 2011, dos quais 65% de fora. Num território onde o reconhecimento do catalão não passa de uma carta de boas intenções, isso é, de entrada, um dado negativo, pois os alóctonos raramente aprendem uma língua minoritária. Com efeito, em 2015 apenas 35,4% da população acima de 15 anos sabia falar catalão, e a porcentagem de quem o usava habitualmente caía a 5,7. O âmbito em que o catalão permanecia mais forte nesse território era na conversação entre netos e avós (20%), o que demonstra a quebra na transmissão da língua após a Segunda Guerra Mundial. A França foi o Estado-nação mais competente em aniquilar as suas minorias linguísticas. Fonte: Enquesta d'usos lingüístics a la Catalunya del Nord, 2015.
  • Andorra: Os andorranos foram minoria no seu próprio país desde a década de 50 até 2014, quando perfaziam 50,2% dos 70.570 habitantes. Mas o reconhecimento do catalão está aí diametralmente oposto ao dos Pireneus Orientais, pois o catalão é a única língua oficial. Por isso, nesse mesmo ano apenas 37,5% da população acima de 15 anos falava mais catalão que outra língua em casa, mas essa porcentagem subia a 91,5% no atendimento da administração pública. Em média, o catalão era a língua mais falada por 49,4%. Fonte: Coneixements i usos lingüístics de la població d'Andorra.
  • Catalunha: 7.553.650 habitantes em 2013, mas também apresenta alta proporção de alóctonos: 58,8 era a porcentagem dos nascidos na Catalunha acima de 15 anos. Não obstante, em virtude da política linguística desenvolvida desde a década de 80, nesse mesmo ano 80,4% sabia falar catalão, o que subia a 98,1% entre os catalães de nascença. De uma forma geral, era a língua habitual de 36,3%, mas detrás desse número há grandes discrepâncias territoriais, pois enquanto esse uso habitual descia a porcentagens por volta de um terço ao longo da costa entre Barcelona e Tarragona, continuava majoritário no resto da Catalunha, além de seguir majoritário também entre os autóctonos: 56,5%. Quanto a âmbitos de uso interpessoal, o catalão era mais fraco em notas pessoais (27,8%) e mais forte no atendimento da administração local (47,9%). Cabe destacar, ainda, que era a língua mais frequente no trabalho (45,5%). Outro dado positivo é que 65,7% dos estrangeiros demonstrassem interesse em aprender o catalão, o que contrasta com os 29,6% entre os nascidos no resto da Espanha. Fonte: Enquesta d'usos lingüístics de la població, 2013.
  • Franja de Aragão: 47.631 habitantes em 2014. É um território essencialmente rural, onde há emigração de autóctonos e imigração de alóctonos. Apesar disso, o conhecimento do catalão continuava muito alto nesse ano: 80,2% da população acima de 15 anos sabia falá-lo, o que contrasta com a porcentagem de 41,2% dos que sabiam escrevê-lo, devida à falta de reconhecimento e, consequentemente, de política linguística favorável na comunidade autônoma de Aragão. Por isso mesmo, o âmbito de uso em que o catalão continuava mais forte era o lar (44,2%) e o mais fraco era o atendimento da administração autonômica (estatisticamente irrelevante). O âmbito público em que o catalão se mostrava mais forte eram os pequenos estabelecimentos comerciais (34,9%). De forma global, era a língua habitual de 49,6% da população. Fonte: Els usos lingüístics a la Franja, 2014.
  • Comunidade Valenciana: Tinha 4.980.689 habitantes em 2015. Desde o repovoamento após a fundação do reino de Valência no séc. XIII, o território tem estado repartido em duas áreas linguísticas, a faixa costeira de predomínio catalanófono e o interior hispanófono (originariamente de língua aragonesa), porém mesmo na área catalanófona, há séculos tem ocorrido a castelhanização dos autóctonos, a partir das classes mais altas. Por isso, nesse mesmo ano apenas 50,9% da população acima de 15 anos falava bastante bem ou perfeitamente o valenciano (que é a denominação local do catalão), e esse número não crescia muito na área catalanófona: 56,4%. Se bem que há discrepâncias territoriais, como na Catalunha: o conhecimento do valenciano era minoritário (por volta de 45%) na área metropolitana de Valência e na região de Alicante/Alacant, mas continuava majoritário no resto da área catalanófona. O âmbito de uso mais forte era o lar (31%) e o mais fraco eram os grandes estabelecimentos comerciais (17,6%). Fonte: Coneixement i ús social del valencià, 2015.
  • Ilhas Baleares: 1.104.479 habitantes em 2015, 55,6% dos quais era autóctonos. Apesar disso, o conhecimento do catalão conservava-se alto: em 2014, 80,5% da população acima de 15 anos sabia falá-lo, com certa discrepância territorial, pois em Menorca e Maiorca os números eram próximos dessa porcentagem, mas em Eivissa e Formentera, um pouco inferior (70,6%). Era a língua habitual de 36,8%, mais forte no atendimento da administração local (40,6%) e mais fraco no atendimento aos clientes (20,5%). Fonte: Enquesta d'usos lingüístics a les Illes Balears, 2014.
  • Alghero: 44.019 habitantes em 2015. Pode-se considerar que o catalão se tornou uma língua minoritária nessa cidade: embora 50,5% da população acima de 15 anos soubesse falá-lo nesse ano, apenas 36,4% declarou poder falá-lo com fluência. Como língua habitual, a porcentagem diminuía a 9,1%. Como nos Pireneus Orientais, em Alghero a transmissão do catalão entre gerações foi quebrada: a conversação entre netos e avós era o âmbito em que permanecia mais forte (cerca de 20%). Curiosamente, 92,3% era favorável ao ensino dessa língua na escola. Fonte: Els usos lingüístics a l'Alguer, 2015.

Atente-se para o fato de que a certa porcentagem de uso do catalão não implica em que o restante corresponde ao uso da língua estatal, pois dependendo do âmbito, a porcentagem de uso de ambas as línguas pode ser elevada. Além disso, nos âmbitos privados o uso das línguas nativas dos imigrantes pode, inclusive, apresentar proporção relevante.
À guisa de resumo, e empregando termos qualitativos, eu diria que a situação do catalão em Andorra é de boa a ótima, na Catalunha é boa, nas Ilhas Baleares é de razoável a boa, nas Franja de Aragão e na Comunidade Valenciana, ainda que bem diferentes, é razoável, e nos Pireneus Orientais e em Alghero é ruim.
Para um aprofundamento de conjunto, consulte-se a síntese da IV Jornada sobre Llengua i Societat als Territoris de Parla Catalana.

sábado, 18 de novembro de 2017

Mitos

Vinte dias após da proclamação da república pelo parlamento catalão, já é possível fazer crítica e autocrítica, e o fato é que houve duas surpresas: a primeira é que não se esperava a opressão violenta por parte do Estado espanhol e a segunda, que a União Europeia se mantivesse mais fiel a sua origem de mercado comum do que a seu projeto de comunidade cívica. Em suma, a Catalunha não estava preparada para impor uma legalidade concorrente com a legalidade espanhola, mesmo porque não se tinha planejado isso, mas sim uma transição jurídica pacífica.
Seja como for, o que me motivou a escrever esta postagem foram os mitos. E a primeira coisa que tenho a dizer é que o mito é constitutivo da experiência humana. Mythos é, afinal, um dos termos para "palavra" no grego antigo, ou seja, diz respeito ao fato de que nos formamos e agimos a partir de narrativas que vamos produzindo e reproduzindo ao longo da vida. Essas narrativas são múltiplas, porque múltiplas são as perspectivas, e por isto mesmo são questionáveis e discutíveis.
Neste sentido, não há um lado catalão contra um lado espanhol, discretos e estanques. Entre o nacionalista catalão mais convicto e o nacionalista espanhol mais ferrenho medeiam vários pontos de vista. Mesmo assim, é possível distinguir alguns pontos críticos que formam, por assim dizer, uma "mitologia" amplamente compartilhada por quem toma partido em direção a um lado ou ao outro. A seguir, vou colocar alguns mitos frequentes no discurso daqueles que se posicionam contra a autodeterminação do povo catalão.

Moeda de 8 reais dos Reis Católicos. A união de Fernando e Isabel é o mito fundante do nacionalismo espanhol, a ponto de sua empresa - as flechas e o jugo - terem sido apropriados pelo fascismo espanhol.
1. A Catalunha nunca foi um país independente.
Já de entrada, há aí um problema: não é razoável sair usando da categoria país independente em qualquer momento da história, porque é uma categoria contemporânea. Antes da Revolução Francesa, há senhorios e há soberania. Todo o mundo - fosse clérigo, nobre, burguês ou campesino - tinha um senhor. Quem não tinha senhor era príncipe soberano, e por isso se intitulava rei, duque, conde "pela graça de Deus". Nesse sentido, os condes catalães deixaram de prestar vassalagem ao rei dos francos após 897, quando Hugo Capeto ascendeu ao trono. Depois disso, foi Raimundo Berengário I o primeiro a ostentar o título de príncipe, isso ao menos desde 1064. Significa que o conde de Barcelona era suserano dos demais. A delimitação territorial é obra de Raimundo Berengário IV, que conquistou Tortosa (1148) e Lleida (1149). No fim desse século, esse principado do conde barcelonês já recebia o nome de Catalonia em latim, e nesse momento já estava consumada a união dinástica com Aragão, pois Afonso o Casto herdara esse reino de sua mãe e o condado de Barcelona, de seu pai, o mesmo Raimundo Berengário IV.
É preciso sublinhar que união dinástica não implica em subordinação. Aragão não era mais que a Catalunha e a Catalunha não era mais que Aragão. Diferentemente de Castela e Leão, que tiveram seus ordenamentos fundidos, a Catalunha e Aragão conservaram suas constituições e compartilhavam unicamente a própria monarquia e, por conseguinte, a política externa. Chamava-se Coroa de Aragão simplesmente porque o título de rei precede ao de conde, tanto que depois foram acrescentados outros estados (Maiorca, Valência, Sicília, Sardenha, Nápoles), mas a denominação permaneceu a mesma.
Finalmente, houve outra união dinástica: com a Coroa de Castela, a partir de 1516, quando começou o reinado de Joana a Louca e Carlos I, filha e neto dos Reis Católicos, que também recebera os estados burguinhões de seu pai, Filipe o Belo. Novamente, nada mudou no plano jurídico. Ainda não existia Espanha como estado (Espanha era termo mais geográfico, equivalente à Hispânia romana, portanto à península Ibérica, do que político), de modo que rei da(s) Espanha(s) era apenas uma forma prática de se referir a um monarca que possuía muitos títulos.
Note-se que a Holanda (1516-1581), a Bélgica e Luxemburgo (1516-1714) e também Portugal (1580-1640) já estiveram na mesmíssima situação da Catalunha dentro da monarquia espanhola.

2. A Catalunha não tem direito à autodeterminação porque não é uma colônia e os catalães não são oprimidos.
A partir de 1714, o cenário muda completamente. Acabava a Guerra de Sucessão Espanhola, que dividira a península e o continente entre partidários de Filipe V, da Casa de Bourbon, e do imperador Carlos VI, da Casa de Habsburgo. Filipe conquistou e castigou os estados da Coroa de Aragão, que tinham apoiado Carlos, abolindo suas plurisseculares instituições e direitos públicos, ficando submetidos às leis de Castela. A Catalunha passou a ser governada exatamente como Santo Domingo, a Guatemala ou o Chile: um capitão-general presidia uma Real Audiência e exercia a máxima autoridade militar, administrativa e judiciária. Isso até 1833, pois nesse ano os estados da monarquia foram dissolvidos, dando lugar a 49 províncias. Depois disso, a Catalunha só voltou a se constituir como entidade política de 1914 a 1925, sob uma deputação provincial unificada (comunidade da Catalunha); de 1931 a 1939, como região autônoma, e desde 1977, como comunidade autônoma.
O uso da língua própria, que é a base da identidade catalã, foi sistematicamente perseguido pelo Estado espanhol entre esses breves períodos de autonomia, atingindo níveis doentios, por exemplo em proibir que se falasse catalão ao telefone. E mesmo sob concessão de autonomia, o fato é que o Estado jamais se dispôs a reconhecer um regime linguístico verdadeiramente simétrico, como na Bélgica ou no Canadá. Tanto na Segunda República como hoje, juridicamente está bem claro: o castelhano, única língua oficial da Espanha, está acima do catalão.
Há poucos dias, uma passageira de um voo de Barcelona a Menorca operado pela companhia Vueling respondeu em catalão a uma interpelação de uma comissária, que se aborreceu por isso; a Guardia Civil foi chamada e os dois agentes entenderam que a passageira foi desrespeitosa e a retiraram da aeronave, junto com sua acompanhante. Não foi um caso isolado; isso é quotidiano.

3. A Catalunha já dispõe de amplíssima autonomia.
Façamos uma comparação bem simples: a Catalunha tem menos autonomia do que um estado brasileiro, a começar pela forma de ordenamento. No Brasil, o povo, por seus representantes, constituiu cada estado e federou-se. Na Espanha, a autonomia é estatuída por lei orgânica aprovada pelas Cortes Gerais e sancionada pelo rei. O Brasil é uma federação: os estados foram constituídos de baixo para cima; a Espanha é um estado unitário descentralizado: as comunidades autônomas foram estatuídas de cima para baixo. Assim, os estados brasileiros, ao ratificarem a Constituição Federal em suas próprias constituições, firmaram um pacto assumindo o mesmo conjunto de competências, enquanto as comunidades autônomas espanholas ficaram à mercê de que o governo central cedesse as competências previstas na Constituição.
Isso gerou assimetrias estranhíssimas, a principal delas é o privilégio outorgado pela vigente Constituição a Navarra e ao País Basco, reconhecendo os direitos públicos dos respectivos estados do Antigo Regime - os forais ou fueros - e revogando as disposições contrárias, o que dotou esses territórios de regimes fiscais diferenciados, graças aos quais possuem suas próprias fazendas. Comparemos novamente: no Brasil, o órgão da União responsável por essa matéria é a Receita Federal, que arrecada, por exemplo, o IRPF. Mas os estados também contam com receitas próprias: no Rio Grande do Norte, denomina-se Secretaria da Tributação, conhecida popularmente como Coletoria. Gerencia os impostos estaduais, como o IPVA. Depois, a União repassa uma porção de sua arrecadação ao fundo dos estados, do qual uns recebem mais e outros, menos. Os que recebem menos podem compensar isso com seus próprios fiscos, pois são estados mais ricos. Na Espanha, a arrecadação é centralizada pela Agencia Tributaria, de modo que o financiamento das comunidades autônomas fica dependente de repasses, à exceção de Navarra e do País Basco. Há anos o aporte catalão ao erário tem sido maior do que é repassado, o que acaba sendo agravado por uma competência tributária ínfima.
É claro que o modelo brasileiro apresenta vários defeitos (desigualdades regionais que acarretam dependência da União, más gestões de fiscos estaduais, subaproveitamento da competência legislativa estadual etc.), mas o fato é que quase todos os países que enfrentam ou poderiam enfrentar tensões regionais optaram pelo modelo federal.

4. A maioria dos catalães não quer a independência.
Aqui necessitamos de uma medição legítima e inquestionável para nos entendermos. Sendo assim, já podemos descartar as pesquisas de opinião. Pesquisas de opinião, comumente encomendadas e publicadas pela mídia, são pagas e caras, e ninguém paga caro para dar resultados que não lhe interessam. Além disso, não têm valor jurídico algum, afinal, na democracia, somente o sufrágio universal garante uma resposta legítima.
Se precisamos de urnas para refutar esse mito, temos de reconhecer que, por enquanto, não sabemos se há ou não uma maioria favorável à independência. Ora, a votação de que dispomos é o referendo de 1.º de outubro, que é considerada unanimemente ilegal por quem é contrário à independência; se foi ilegal, então seus resultados não são válidos, de modo que não se pode esgrimir a porcentagem de abstenção assim como não se pode usar dos votos no sim. E isso nos leva às últimas urnas incontestes, que não distam muito e têm a vantagem de uma participação extraordinária (74,95%): as eleições ao Parlamento da Catalunha em 27 de setembro de 2015.
Como o sistema político é parlamentarista, o cidadão vota numa lista de candidatos, apresentada por um partido ou coalizão, que propõe um programa de governo durante a campanha. Isso nos permite relacionar os resultados a como a sociedade encara certo assunto que tenha perpassado todos os programas. Neste sentido, 47,8% do eleitorado catalão, representado pela coalizão JxSí (Junts pel Sí) e pela CUP (Candidatura d'Unitat Popular), defende a independência; 26,39%, representado por C's (Ciudadanos) e pelo PP (Partido Popular), prefere que a Catalunha permaneça como uma comunidade autônoma espanhola; 12,72%, representado pelo PSC (Partit dels Socialistes de Catalunya), aposta no federalismo; 8,94%, representado pela coalizão CSQP (Catalunya Sí que es Pot) acredita num referendo pactuado; outras propostas não obtiveram representação parlamentar.
Observe, pois, que se somarmos as forças políticas favoráveis ao direito de autodeterminação, sobe para 56,74% do eleitorado, e se, além disso, acrescentarmos a propugnação de que o modelo autonômico está esgotado, vai para 69,46%.

5. A Constituição espanhola não permite a secessão.
Pouquíssimas permitem, até porque um dos primeiros dispositivos de textos constitucionais costuma ser assentar e assegurar a integridade territorial. Porém, também deveria ser pacífico que a lei sem o consenso social deixa de ser democrática e se torna tirânica.
Como visto, na Catalunha há uma maioria clara a favor da autodeterminação, e uma maioria dessa magnitude não se forma da noite para o dia. É necessária uma identidade muito reforçada por uma narrativa que a construa como uma nação alternativa à promovida pelo Estado e é necessário um acúmulo de agravos contra essa construção.
Há dois precedentes para a autodeterminação da Catalunha: o Quebeque e a Escócia. No caso desta, tratava-se de desfazer o Reino Unido, que, de resto, não possui constituição codificada, e os separatistas nem sequer propunham abjurar a Coroa. Portanto, difícil traçar qualquer paralelo. Já o caso do Quebeque, além de ser mais parecido, comporta um interessante parecer da Suprema Corte do Canadá sobre o direito à autodeterminação: a secessão é inconstitucional, mas se uma maioria clara responder afirmativamente a uma questão clara sobre a secessão, o governo federal e as demais províncias têm o dever de negociar. É isso, justamente, o que falta entre a Catalunha e a Espanha: o PP representa menos de 10% do eleitorado catalão, mas no conjunto da Espanha é o partido mais votado e que governa, e enquanto ele governar, não haverá negociação neste assunto.

6. O separatismo é promovido pela esquerda.
O nacionalismo catalão tem origem burguesa. Se procurarmos traçar a árvore genealógica do PDeCAT (Partit Demòcrata Europeu Català), o partido do presidente Carles Puigdemont, chegaremos à burguesia catalã do séc. XIX, insatisfeita com uma Espanha governada por uma oligarquia latifundiária e militar. A esquerda só aderiu à causa catalanista na década de vinte, e de fato foi a ERC (Esquerra Republicana de Catalunya) que governou a Catalunha durante a experiência autonômica sob a Segunda República e manteve a Generalitat no exílio, mas de 1980 para cá, foi a CDC (Convergència Democràtica de Catalunya), predecessora do PDeCAT, que governou, excetuando o período de 2003 a 2010. Nos últimos dois anos, PDeCAT e ERC - portanto direita e esquerda - estiveram unidos pela coalizão Junts pel Sí.
Seja como for, é preciso entender que um nacionalismo alternativo como o catalão não alcança o tamanho que tem sem se consolidar como uma plataforma onde cabem diversos posicionamentos no espectro político. No catalanismo, apenas a extrema-direita está ausente, pois, nessa arena, ela é sempre espanholista.

7. Os separatistas manipulam a história, doutrinam as crianças e fomentam o ódio contra a Espanha.
Ninguém nasce convicto de sua nacionalidade. Antes da Revolução Francesa, as pessoas sabiam qual era seu lugar no mundo de acordo com sua filiação, que determinava seu senhor e seu estamento. Depois disso, é a escola que nos ensina a distinguir bandeiras e brasões, a cantar hinos, a recontar façanhas de bravura e heroísmo. Isso é doutrinação, ou, em outras palavras, há sempre uma perspectiva, que pode ser hegemônica ou contra-hegemônica. Numa escola castelhana a história da Espanha é ensinada da perspectiva espanhola e numa escola catalã a história da Catalunha é ensinada da perspectiva catalã.
Outra coisa é negar fatos. E é fato que a história da Catalunha em união dinástica com a Coroa de Castela e dentro do Estado espanhol está repleta de conflitos. Não é uma história de amor, carinho e respeito mútuo! Vamos negar que na década de trinta do séc. XVII o privado de Filipe IV maquinou o envolvimento dos catalães na política imperial da monarquia contra as próprias leis catalãs? Vamos negar que em 1715 o engenheiro-chefe de Filipe V demoliu centenas de moradias e levantou uma fortaleza para oprimir a cidade de Barcelona? Vamos negar os sucessivos atos legais contra o uso da língua catalã nos últimos trezentos anos, hoje facilmente consultáveis nas compilações de leis disponíveis na Internet? Vamos negar que em 1940 Lluís Companys foi preso, sumariamente julgado e fuzilado por ser presidente da Generalitat? Vamos negar que em pleno 2017 grande parte da sociedade espanhola está pronta para endossar qualquer medida repressiva contra catalães separatistas?
Por outro lado, nesses quinhentos anos de acidentada união, os catalães jamais atacaram Castela ou a Espanha pelas armas. E se alguma vez pegaram em armas, foi em defesa contra agressões. O separatismo dos últimos anos sempre buscou a via do voto, e o voto sempre abrangeu a escolha do não.

8. Os separatistas são racistas e totalitários.
O separatismo é fortíssimo na Catalunha central, que é, digamos assim, a Catalunha "profunda", dos condados medievais, onde a maioria das pessoas têm dois sobrenomes bem catalães, e é minoritário na faixa costeira, onde há mais gente de outras partes da Espanha e seus descendentes, especialmente no âmbito metropolitano de Barcelona, que acolheu a onda migratória durante o franquismo. Para se ter uma ideia, nessas áreas bastante gente nunca aprendeu a falar catalão, apesar de viver há décadas na Catalunha.
Independentemente destes aspectos, nas fileiras separatistas há várias pessoas de sobrenomes castelhanos, ou seja, filhos ou netos desses migrantes. De fato, entre os primeiros presos por "sedição" está Jordi Sánchez, presidente da organização ANC (Assemblea Nacional Catalana). O nacionalismo catalão não é étnico. O que opõe dois catalães quanto à identidade é, antes de tudo, suas atitudes em face da língua catalã, pois não há catalanismo sem defesa do idioma.
Quanto ao mito do totalitarismo, dois terços do governo catalão estão encarcerados por "rebelião" e o restante está refugiado na Bélgica. Quem está investido do monopólio da violência é o Estado, não um governo que colocou urnas para os cidadãos depositarem um sim ou um não e depois de executar a opção majoritária se recusou a constranger seus funcionários, inclusive sua milícia, a escolher um lado. É preciso ingenuidade ou má-fé para crer que qualquer um tenha sido compelido ao separatismo.

9. O separatismo fratura a sociedade e deixa o mundo mais dividido.
Enquanto o Estado usa de violência física e simbólica para conter a separação política da Catalunha, a sociedade espanhola não enxerga que a separação sentimental já aconteceu. É raríssimo topar com um espanhol que mostre compreender as razões dos catalães, mas defenda a união a partir do diálogo por uma renovação do pacto autonômico. Normalmente, a reação é essencialmente militarista: prender, julgar (sumariamente) e punir. Ainda ontem o ministério público belga anunciou o adiamento da decisão sobre a extradição do presidente Puigdemont e dos outros quatro membros do governo catalão refugiados aí, e logo apareceram na Internet comentários propugnando boicote ao chocolate belga... É que, de uma forma geral, os espanhóis odeiam que os catalães, sempre insatisfeitos com a autonomia concedida e a tolerância de falarem sua língua entre si, insistam em confrontar a Espanha tal qual construída pelo nacionalismo espanhol, ou seja, a partir da superioridade castelhana...
Por outro lado, a primeira das grandes manifestações separatistas nos últimos anos, a ocorrida na Diada Nacional de 2012, tinha uma lema muito claro: Catalunya, nou estat d'Europa, ou seja, "Catalunha, novo estado da Europa". O nacionalismo catalão do séc. XXI é europeísta. Isso quer dizer que não pretende isolar a Catalunha como um país "terceiro-mundista", como de vez em quando a gente escuta ou lê, mas almeja participação plena na União Europeia e no concerto das nações, em especial fraternidade com a própria Espanha.
A sociedade espanhola precisa perceber que o separatismo é uma constante na história da Catalunha dentro da Espanha, e isso certamente tem uma causa perene... a reflexão que cabe é: será que só os catalães são ruins?
A independência em outubro de 2017 foi abortada cerceando o voto dos cidadãos, destituindo o governo da Generalitat, dissolvendo o parlamento catalão e convocando eleições autonômicas para dezembro. E se as forças separatistas voltarem a ganhar, como, de resto, está prognosticado? Repetir tudo até prender todos os separatistas ou convencê-los de que a Catalunha é uma merindad de Castela?

10. O separatismo negligencia as demandas sociais imediatas e tem causado prejuízos econômicos.
Os catalães separatistas creem que a independência oferece a oportunidade de constituir um estado de bem-estar social à medida de suas necessidades. Não é um caminho fácil, porque às hegemonias, como o mercado, só interessam as mudanças quando preveem mais lucros. Por isso, a alguns parecerá uma tolice, uma insensatez, uma loucura, e têm direito de pensar assim, mas aos catalães também deveria ser reconhecido o direito a decidir.